Vivo numa terra onde se passou a fazer o carnaval de hà uns anos a esta parte, e sempre me questionei porquê. Porque é que ninguém teve a mesma ideia nas aldeias e vilas das redondezas? A resposta é simples: a minha terra está cheia de caretas (não generalizando, claro - não quero insultar os inocentes).
Dessa forma práticamente não precisam de máscara para fazer a festa.
Definir careta: um careta é um indivíduo da classe média ou alta, geralmente com uma escolaridade média ou suficiente, filho dos papás, sempre com as costas quentes e o prato cheio na mesa (quer o mereça ou não). É convencido e arrogante, interesseiro e estúpido, e quando faz asneiras o pai fala com a vitíma e paga o prejuízo, obrigando-a a calar o bico (a menos que queira ter problemas inesperados no futuro). Isto é quando o careta é ainda jovem e está sobre a alçada dos pais.
Quando o careta passa à idade adulta os pais arranjam-lhe um tacho na administração pública e candidata-se no partido político mais promissor (neste caso o PSD), ou na Academia de Música, no Museu da terra, na junta de freguesia, nas escolas públicas ou faculdades, no correio ou no teatro, no futebol, na organização do carnaval ou das festas anuais, e a vida é bela.
A arrogância e prepotência crescem com o estatuto do cargo e a careta também. Já só conhecem quem lhes apetece (os da cor deles) e quando raramente nos cruzamos na rua fazem de conta que não vêm ninguém. Pode parecer ridículo, mas é a pura verdade.
Tudo o que comentei até aqui vi com os meus próprios olhos acontecer.
Com a idade o careta incha como um sapo e pensa que é dono da freguesia. Está pronto a dar ordens ao povo e quer ser respeitado como um senhor. Apesar de ser um parolo que nada faz pelos outros, acha-se com direito a ser respeitado por mérito próprio: o mérito da sua posição social. Isso vale o quê? A sua posição social.
Hoje em dia só os vejo fazerem asneiras e construirem veleidades quase inúteis para a sociedade: cortaram as árvores do arraial e construiram um fontanário com repuxos para seu bel-prazer, cortaram os salgueiros pela copa na entrada da Quinta de D. António num acto absolutamente injustificado e infeliz para quem gostaria de se sentar naquele muro a olhar para as ruínas da fábrica de papel, e mais recentemente, aproveitaram as tempestades de Inverno para desbastarem as árvores da Quinta de D. António de maneira abusiva e absolutamente injustificável (para ganharem algum com a venda da madeira): e lá se foi a sombra no quente Verão.
Estou revoltado com estes políticos de meia leca, actuais e do passado recente, que só fazem merda. Prometem, prometeram passeios confortáveis e estradas direitas em toda a freguesia: no Serrado vê-se qualquer coisa, quase um ano depois. E as estradas decentes, à CEE? Quando andamos nelas parece que navegamos no mar. E a horrorosa passagem de nível de Riomaior? Quando lá passamos de carro, a suspensão quase se escangalha. Será que ninguém tem consciência da ineficácia destes dirigentes políticos? Será que andam pelo ar e não vêm esses problemas que afectam toda gente? Afinal qual é o papel deles? Mamar e dormir, como bébés rechonchudos? Ou velhos crápulas incompetentes?
Não quero saber da poliítica para nada. Quero é o bem estar da população, estupidamente massacrada ao longo de gerações, calada e assumidamente conformada.
A mim ninguém me cala, e se não trabalharem para o bem estar do povo, os políticos actuais no poder vão ter que engolir muitos sapos venenosos. O pedestral em que pensam estar essentes é de barro, e a careta que têm, juntamente com o fato e gravata de luxo que vestem, não os salvará da subserviência ácida das minhas observações.
Esta treta toda surgiu devido a um acontecimento na Academia de Música.
Um destes dias estava eu tranquilamente em casa quando recebi um e-mail a dizer que ia haver na Academia de Música um concerto para flauta e orquestra, sexta-feira às nove da noite. Como costumo passear pela freguesia depois do jantar e a hora era propícia, decidi passar por lá e ver o ambiente. Em princípio não demoraria mais de um quarto de hora porque não sou apreciador de música clássica, mas quando lá cheguei e no fim de uma música vi que o maestro Vitorino de Almeida estava a assistir e a dar uma palestra extra, fui ficando e comecei a fotografar a cena. Pelos vistos fazia 70 anos nesse dia e tinha decidido (provavelmente com a colaboração do Fernando Augusto) comemorar o seu aniversário longe da confusão da capital com um concerto da sua autoria.
Francamente estava a gostar da música e tentava registar o acontecimento com mais fotografias, deslocando-me ligeiramente para o centro do anfiteatro para um melhor enquadramento, quando um indivíduo nesse ângulo se debruçou sobre mim e disse qualquer coisa: infelizmente para ele, quando falou, a orquestra atacou a fundo e não ouvi nada do que disse; abanei a cabeça afirmativamente e retirei-me para o meu canto. Passado um bocado voltei ao ataque no mesmo sítio (ao lado dele) e sai flash: mas quando olhava para as imagens que ia fazendo via que não estavam a sair nada bem e insistia. É então que o indivíduo indignado se debruça novamente sobre mim (era maior do que eu) e começa a ralhar comigo. Diz que não devia de fazer o que estava a fazer e se via alguém a fazer o mesmo. Óbviamente que ninguém tinha uma máquina como a minha, só telemóveis, e também é mais do que evidente que podia ir lá para baixo, para perto do palco, sentar-me e fazer as fotos que me apetecesse; mas como depois de jantar não gosto de estar sentado não fui. E se fosse, e começasse a flashar a seco tão perto do palco, aí sim, poderia incomodar os músico, coisa que nunca faria. Portanto, dentro da perspectiva do pataqueiro só devia tirar fotografias quando o maestro falasse e não durante o espectáculo. Já a ficar fodido com o careta convencido digo-lhe que não me pareço com ninguém e ninguém me dá ordens, quando outro, ao lado dele (que conheço desde puto e sempre desprezei) se vira para mim e diz que se não fosse conhecido ia lá para fora.
Claro que na hora me questionei que espécie de parolo era aquele com ideias tão erradas sobre óptica. A uma distância superior a vinte metros de distância o efeito do flash é equivalente a acender um isqueiro, não incomoda ninguém, e a prova estava na qualidade das imagens - desfocadas ou tremidas pelo movimento dos músicos, ao tocarem vigorosamente nos seus instrumentos.
"Só fala quem não tem razão ou por ignorância na ocasião". Ou por ser um grande caretão.
Farto de aturar semelhantes malaicos abano a cabeça para a minha mulher e saio da sala. Se a música não estivesse tão alta perguntava ao "labsolu" quem é que iria tomar essa iniciativa: o primeiro "ladislau" que me pusesse as patas em cima poderia mais tarde dizer se o material da minha máquina era feito de plástico ou metal, quando a partisse na sua real cabeça.
Quem é que estes lindinhos pensam que são?
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
terça-feira, 10 de agosto de 2010
O arquivista-mor na fortaleza do conhecimento
As dádivas do vizinho obrigaram-me a reestruturar o arquivo da minha biblioteca caseira, e inicialmente pensei que não iria ter espaço para tantos livros. Felizmente a minha estante é exageradamente larga (no passado tinha criticado a minha mãe pelo facto - agora teria de lhe agradecer) e depois de ter feito uma limpeza geral a todos, comecei a agrupá-los por calibre. Desta forma:
Já que estava com a mão na massa e gosto de caprichar, comecei a construir uma autêntica muralha de livros. Não contava era com tantos, e tão variados formatos, alguns estranhos à estética dos tempos actuais. Também nunca tinha visto uma tal variedade de qualidades de papel, alguns muito bons (estou a falar de papel com cem anos ou mais).
Durante dois ou três dias fui-os amontoando e criando paredes: a muralha externa com os mais grossos (enciclopédias de 1880 e mais recentes, volumosos e grandes) seguidos dos mais pequenos (médios) em segunda fila, e para o centro os mais pequenos.
Finalmente a fortaleza estava de pé, em delicado equilíbrio (a minha casa abana muito com a passagem de camiões pesados, e receava que a trepidação podesse deitar abaixo a construção - mas resistiu) e pude tirar umas fotografias elucidativas do que estou a escrever antes de os mandar para a estante.
Não sei que sorte é a minha: só sei que me surgem sempre trabalhos tão pesados e morosos (embora gratuítos) que passo meses a executá-los debaixo duma pressão irreprimível e irrecusável. Também posso garantir que não vou comprar mais nenhum livro na vida, a não ser de ficção científica da colecção Argonauta. Dos meus autores favoritos (se os encontrar - nas calmas).
Os livros são o cerne do conhecimento humano, e nem os computadores os conseguem suplantar (ainda). É mais saudável olhar para uma folha de papel do que para o visor luminoso duma máquina.
Voyons le bout du boulot:
Ler é um privilégio extraordinário desperdiçado pelo mundo Ocidental. Quando estive a viver durante um ano no Congo-Brazzaville pude ver e comparar as diferenças entre ter e não ter cultura livresca. Lá, qualquer tipo de livro ou revista era devorado até à exaustão por quem pudesse ter acesso a ele: isto antes de ser devorado pelo bolôr e pelas bactérias, ou por uma boa cagada ao ar livre.
Já que estava com a mão na massa e gosto de caprichar, comecei a construir uma autêntica muralha de livros. Não contava era com tantos, e tão variados formatos, alguns estranhos à estética dos tempos actuais. Também nunca tinha visto uma tal variedade de qualidades de papel, alguns muito bons (estou a falar de papel com cem anos ou mais).
Durante dois ou três dias fui-os amontoando e criando paredes: a muralha externa com os mais grossos (enciclopédias de 1880 e mais recentes, volumosos e grandes) seguidos dos mais pequenos (médios) em segunda fila, e para o centro os mais pequenos.
Finalmente a fortaleza estava de pé, em delicado equilíbrio (a minha casa abana muito com a passagem de camiões pesados, e receava que a trepidação podesse deitar abaixo a construção - mas resistiu) e pude tirar umas fotografias elucidativas do que estou a escrever antes de os mandar para a estante.
Não sei que sorte é a minha: só sei que me surgem sempre trabalhos tão pesados e morosos (embora gratuítos) que passo meses a executá-los debaixo duma pressão irreprimível e irrecusável. Também posso garantir que não vou comprar mais nenhum livro na vida, a não ser de ficção científica da colecção Argonauta. Dos meus autores favoritos (se os encontrar - nas calmas).
Os livros são o cerne do conhecimento humano, e nem os computadores os conseguem suplantar (ainda). É mais saudável olhar para uma folha de papel do que para o visor luminoso duma máquina.
Voyons le bout du boulot:
Ler é um privilégio extraordinário desperdiçado pelo mundo Ocidental. Quando estive a viver durante um ano no Congo-Brazzaville pude ver e comparar as diferenças entre ter e não ter cultura livresca. Lá, qualquer tipo de livro ou revista era devorado até à exaustão por quem pudesse ter acesso a ele: isto antes de ser devorado pelo bolôr e pelas bactérias, ou por uma boa cagada ao ar livre.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Dádivas dum vizinho 1
Fim de dois meses de trabalho intensivo e obsecado na recuperação e restauração das ofertas do vizinho.
Durante todo este processo senti-me como um pirata a pilhar a casa de um Lorde, com a sua respectiva autorização (e sugestões extra na hora - e que belas sugestões).
É inacreditável aquilo que se deita ao lixo. Como se poderá ver de seguida, uma restauração apurada opera milagres. Depois de litros de cola, dezenas de horas de colagens, digitalizações, encadernamentos com papel grosso de pinturas Espanholas e aguarelas de Abílio Guimarães, apoiadas por forro de linho como reforço, com a limpeza das pochettes na máquina de lixar, a engolir pó com quase duzentos anos, e a apanhar correntes d´ar durante tantas horas que perdi a conta, debaixo do barulho atroador de semelhante locomotiva, dá para pedir tréguas. Trabalho de mineiro, durante seis horas por dia, sete dias da semana.
Como estava a mexer nos livros lembrei-me de deitar uma vista d´olhos aos meus (convencido que estavam muito melhores do que os outros) mas quando lhes peguei fiquei surpreendido; estavam tão sujos como eles. Resultado: tive de limpar os dados, e os meus (efeito borboleta). Contudo não bastava isso (sou um indivíduo descontente com a normalidade) e decidi pintar as folhas na pochete dos mais significativos a aguarela. Também queria de alguma forma acabar com a caixa de aguarelas reforçada que parecia não ter fim (e não consegui).
Na segunda vez que o vizinho apareceu a bater à porta num domingo (como ficou mais ou menos combinado) fomos novamente a casa da mãe no Mercedes, e by God - nunca andei tão rápido na minha vida. A 180 à hora. No entanto parecia que iamos a 100 - 120 quilómetros à hora na via rápida, e ele comentava que tinha receio de ir mais depressa (na generalidade) com medo que alguém saltasse de repente para a faixa mais rápida e ele sem querer o albarroasse e atirasse, seguramente, para fora da estrada.
Desta vez fui com a minha mulher com a intenção de escolher louça e outros objectos caseiros que ele queria despachar. Estava numa de fazer uma limpeza geral e haviam muitos objectos dispensáveis.
"Nice".
A minha, além da curtição da novidade, ia também ajudar-me a carregar os artigos que iamos escolher.
Fizemos dois carregamentos, isto é: enchemos a mala do Mercedes e viemos a minha casa descarregá-la. Descarregamos os livros, as peças de forro e algodão em rolo (parece que o pai dele tinha uma loja de texteis e artigos de costura) e regressamos: carregamos mais uma vez com, por exemplo, a colecção completa do Reader´s Digest desde o 1º nº (10 anos de fascículos), caixas antigas de latão pintadas à mão para guardar as bolachinhas (coisas que a minha mulher adora) um cofre de madeira folheado a prata-latão, não sei, com marfim e pedras brilhantes, do séc:XVIII (como grande parte dos livros nesta remessa) difícil de desalojar visto estarem nas águas-furtadas, e aí a Mira foi muito útil, devido à sua baixa estatura, e ajudou imenso (como sempre). A minha Mira é uma mulher de guerra.
No arrasto veiram caixas cheias de botões sortidos, rolos de linhas de vários tipos, botijas de gaz de isqueiro, jogo de chã, copos pequeninos de beber "dinamite" - uma colecção. Tapparoués, brincos e colares semi-preciosos dos anos sessenta, "o dragão-branco", a maior concha da minha colecção, a quem chamo - todo sorrisos - um trabalho decorativo geométrico composto por pequenas conchas-dinheiro, e vamos dar uma vista de lunetas a algumas peças recuperadas.
A big smile.
Durante todo este processo senti-me como um pirata a pilhar a casa de um Lorde, com a sua respectiva autorização (e sugestões extra na hora - e que belas sugestões).
É inacreditável aquilo que se deita ao lixo. Como se poderá ver de seguida, uma restauração apurada opera milagres. Depois de litros de cola, dezenas de horas de colagens, digitalizações, encadernamentos com papel grosso de pinturas Espanholas e aguarelas de Abílio Guimarães, apoiadas por forro de linho como reforço, com a limpeza das pochettes na máquina de lixar, a engolir pó com quase duzentos anos, e a apanhar correntes d´ar durante tantas horas que perdi a conta, debaixo do barulho atroador de semelhante locomotiva, dá para pedir tréguas. Trabalho de mineiro, durante seis horas por dia, sete dias da semana.
Como estava a mexer nos livros lembrei-me de deitar uma vista d´olhos aos meus (convencido que estavam muito melhores do que os outros) mas quando lhes peguei fiquei surpreendido; estavam tão sujos como eles. Resultado: tive de limpar os dados, e os meus (efeito borboleta). Contudo não bastava isso (sou um indivíduo descontente com a normalidade) e decidi pintar as folhas na pochete dos mais significativos a aguarela. Também queria de alguma forma acabar com a caixa de aguarelas reforçada que parecia não ter fim (e não consegui).
Na segunda vez que o vizinho apareceu a bater à porta num domingo (como ficou mais ou menos combinado) fomos novamente a casa da mãe no Mercedes, e by God - nunca andei tão rápido na minha vida. A 180 à hora. No entanto parecia que iamos a 100 - 120 quilómetros à hora na via rápida, e ele comentava que tinha receio de ir mais depressa (na generalidade) com medo que alguém saltasse de repente para a faixa mais rápida e ele sem querer o albarroasse e atirasse, seguramente, para fora da estrada.
Desta vez fui com a minha mulher com a intenção de escolher louça e outros objectos caseiros que ele queria despachar. Estava numa de fazer uma limpeza geral e haviam muitos objectos dispensáveis.
"Nice".
A minha, além da curtição da novidade, ia também ajudar-me a carregar os artigos que iamos escolher.
Fizemos dois carregamentos, isto é: enchemos a mala do Mercedes e viemos a minha casa descarregá-la. Descarregamos os livros, as peças de forro e algodão em rolo (parece que o pai dele tinha uma loja de texteis e artigos de costura) e regressamos: carregamos mais uma vez com, por exemplo, a colecção completa do Reader´s Digest desde o 1º nº (10 anos de fascículos), caixas antigas de latão pintadas à mão para guardar as bolachinhas (coisas que a minha mulher adora) um cofre de madeira folheado a prata-latão, não sei, com marfim e pedras brilhantes, do séc:XVIII (como grande parte dos livros nesta remessa) difícil de desalojar visto estarem nas águas-furtadas, e aí a Mira foi muito útil, devido à sua baixa estatura, e ajudou imenso (como sempre). A minha Mira é uma mulher de guerra.
No arrasto veiram caixas cheias de botões sortidos, rolos de linhas de vários tipos, botijas de gaz de isqueiro, jogo de chã, copos pequeninos de beber "dinamite" - uma colecção. Tapparoués, brincos e colares semi-preciosos dos anos sessenta, "o dragão-branco", a maior concha da minha colecção, a quem chamo - todo sorrisos - um trabalho decorativo geométrico composto por pequenas conchas-dinheiro, e vamos dar uma vista de lunetas a algumas peças recuperadas.
Quando estavamos na garagem a carregar e a ver toda uma série de artefactos dispensáveis, como baldes, churrasqueira, tábua de engomar, pastas de postais do pai dele que gostaria de digitalizar (visto serem antigos) reparei numa caixa de cartão grande com a imagem de um piano Yamaha. Na brincadeira perguntei por ele e se também era para ser despachado. A mulher dele disse que estava lá em casa e era para o filho. Ponto final e regressamos com mais uma carga, chegamos a casa, abri a porta da garagem, descarregamos e eles despediram-se e foram embora.
Enquanto a Mira vai para cima preparar o jantar fiquei na garagem a tentar organizar as ofertas, quando de repente ouço chegar um carro e alguém a bater à porta: veio-me um flash à cabeça com a convicção da chegada de mais uma fezada, e quando espreito pela porta vejo o meu a acenar. Abro-a, ele tira do carro o piano e diz que o filho não o quer - portanto é meu. Fico sem palavras, e ele vai-se embora a rir debaixo dos meus agradecimentos mais profundos.
Onde é que já se viu disto? Até os comentários mais sinceros parecem estúpidos perante tal generosidade.
A big smile.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Dádivas dum vizinho
Tenho um novo vizinho, generoso e desinteressado, que me tem dado umas fêzadas, e isso é óptimo (e inesperado). Geralmente ninguém dá nada a ninguém, mas como ele não queria deitar simplesmente fora certas coisas falou comigo e aceitei ver o "mambo".
Algum tempo atrás a minha mulher tinha falado com ele e pediu-lhe se (por acaso) visse alguma máquina de costura à venda durante as suas viagens de trabalho lhe disse-se.
Na Páscoa deste ano o pai dele morreu inesperadamente durante a Quaresma e a mãe decidiu despachar tudo que estivesse ligado à sua vida passada com o defunto.
Pouco tempo depois apareceu no meu trabalho com a máquina de costura da mãe e deu-ma. Uma Oliva antiga de grande qualidade completamente nova e fiquei de boca aberta com semelhante prenda: não quiz um tostão por ela e disse que tinha imensos livros e outras coisas para dar, ou deitar fora.
Dias mais tarde apareceu novamente de repente e perguntou-me se não queria ir com ele a casa da mãe ver os livros. Disse logo que sim. Quando chegamos à magnifica casa (agora abandonada) ele levou-me à sala de leitura do pai e disse-me para escolher os livros que me interessassem. Não pareciam tantos assim, mas à medida que os ia retirando das prateleiras e analisando, vi que eram muitos: dezenas. Pareciam meios podres e chamuscados por fora, mas ao folhea-los estavam bem por dentro, portanto recuperáveis para um mestre artesão como eu, perito na restauração e recuperação de peças degradadas em extremo.
Nesse fim de tarde carregamos a carrinha até não caber mais nada com livros, peças de tecido e forro, linhas de costura, decorações e caixas de vários tipos; latão pintado e madeira, com incrustações de marfim e madre-pérola. E isto era apenas o princípio.
Depois conto mais.
Vejamos agora algumas imagens do evento.
Algum tempo atrás a minha mulher tinha falado com ele e pediu-lhe se (por acaso) visse alguma máquina de costura à venda durante as suas viagens de trabalho lhe disse-se.
Na Páscoa deste ano o pai dele morreu inesperadamente durante a Quaresma e a mãe decidiu despachar tudo que estivesse ligado à sua vida passada com o defunto.
Pouco tempo depois apareceu no meu trabalho com a máquina de costura da mãe e deu-ma. Uma Oliva antiga de grande qualidade completamente nova e fiquei de boca aberta com semelhante prenda: não quiz um tostão por ela e disse que tinha imensos livros e outras coisas para dar, ou deitar fora.
Dias mais tarde apareceu novamente de repente e perguntou-me se não queria ir com ele a casa da mãe ver os livros. Disse logo que sim. Quando chegamos à magnifica casa (agora abandonada) ele levou-me à sala de leitura do pai e disse-me para escolher os livros que me interessassem. Não pareciam tantos assim, mas à medida que os ia retirando das prateleiras e analisando, vi que eram muitos: dezenas. Pareciam meios podres e chamuscados por fora, mas ao folhea-los estavam bem por dentro, portanto recuperáveis para um mestre artesão como eu, perito na restauração e recuperação de peças degradadas em extremo.
Nesse fim de tarde carregamos a carrinha até não caber mais nada com livros, peças de tecido e forro, linhas de costura, decorações e caixas de vários tipos; latão pintado e madeira, com incrustações de marfim e madre-pérola. E isto era apenas o princípio.
Depois conto mais.
Vejamos agora algumas imagens do evento.
terça-feira, 27 de abril de 2010
A invasão dos fungos virulentos
Com o aquecimento global a temperatura está a subir pelo mundo acima e a trazer consigo novas doenças relacionadas com o calor. Está também a criar mutações em vírus e bactérias, que dessa forma se adapatam às novas condições do clima e do terreno a conquistar. Nesta fase da história do planeta estamos quase com apenas duas estações no nosso país: A húmida e a quente, ambas longas. Com o eventual degelo hà mais água doce no mar, o que facilita a evaporação e provoca muito mais pluviosidade. As provas desse fenómeno este ano foram constantes um pouco por todo o lado: tempestades terríveis destruiram vastas áreas, e fenómenos anormais como trombas de água e mini tornados começaram a varrer a paisagem. Receio que no futuro vá ser ainda pior. Com a qualidade de vida dos humanos a retroceder os fungos avançam e começam a incomodar sériamente.
Eu já fui afectado duas vezes na Primavera este ano, coisa que nunca me aconteceu aqui. No Congo sim. Apanhei uma série de investidas desse tipo, mas como lá isso é banal, eles (os pretos) sabiam como lidar com o problema; a única solução era comunicar (falar) acerca de tudo que nos afectasse para investigarem, diagnosticarem e tratarem na hora. Geralmente eram bactérias que se colavam à roupa a secar (como larvas de moscas e outros insectos) e depois passavam para a pele quando a vestiamos. Apesar de toda a roupa era bem passada a ferro. O outro tipo mais comum era nos pés. Como lá não se pode andar calçado decentemente por causa do calor andamos sempre de sandálias, e o ataque era aos dedos, sobretudo no espaço entre as unhas. A origem dos fungos aqui é mais insidiosa, e como não estavamos habituados a eles por vezes reagimos tardiamente, o que vem agravar o problema. Aconselho a toda a gente a desconfiar de sintomas anormais e a recorrer a um médico em caso de dúvida. Pelos vistos são persistentes e difíceis de eliminar, e quando são naquele apêndice que a gente cá sabe, é sempre muito aborrecido.
Eu já fui afectado duas vezes na Primavera este ano, coisa que nunca me aconteceu aqui. No Congo sim. Apanhei uma série de investidas desse tipo, mas como lá isso é banal, eles (os pretos) sabiam como lidar com o problema; a única solução era comunicar (falar) acerca de tudo que nos afectasse para investigarem, diagnosticarem e tratarem na hora. Geralmente eram bactérias que se colavam à roupa a secar (como larvas de moscas e outros insectos) e depois passavam para a pele quando a vestiamos. Apesar de toda a roupa era bem passada a ferro. O outro tipo mais comum era nos pés. Como lá não se pode andar calçado decentemente por causa do calor andamos sempre de sandálias, e o ataque era aos dedos, sobretudo no espaço entre as unhas. A origem dos fungos aqui é mais insidiosa, e como não estavamos habituados a eles por vezes reagimos tardiamente, o que vem agravar o problema. Aconselho a toda a gente a desconfiar de sintomas anormais e a recorrer a um médico em caso de dúvida. Pelos vistos são persistentes e difíceis de eliminar, e quando são naquele apêndice que a gente cá sabe, é sempre muito aborrecido.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Que Primavera mais estranha
No dia 13 de Abril fomos para a praia de Paramos, pusemo-nos atrás do paredão por causa da Nortada e passamos uma tarde espectacular. Mesmo depois das cinco da tarde fui ao mar e dei dois mergulhos deliciosos com a água perfeitamente aceitável a nível de temperatura.
Tenho reparado que o vento também já não é como dantes. Antigamente, se estivesse vento para o interior, junto à costa era insuportável. Agora não. Faz uma ventania louca aqui e quando nos aproximamos da costa amaina, e está-se melhor que no interior. Estranho, não é? Eu acho.
Este Inverno e Primavera já vi de tudo a nível climatérico: só faltava a erupção dum vulcão na Islândia para alterar ainda mais o paradigma da civilização moderna (e a sua incapacidade de ultrapassar certos desafio da natureza). Neste momento a Europa Ocidental está com os vôos aéreos cancelados até o vulcão amainar, só que o dito cujo não está pelos ajustes e continua a cuspir fumo, cinza e lava com fartura para a atmosfera.
Acho uma dádiva dos Deuses acontecimentos como este: é da maneira que o animal humano não polui o ar que respira durante algum tempo (o vulcão trata disso). As companhias aéreas? - que se lixem! Ganham fortunas por ano, à custa das futuras gerações. Façam aviões a andar à vela.
O humano tem que viajar? Que vá a cavalo ou de burro. É da maneira que mantém a forma e vê o Mundo que o rodeia com todos os cambiantes do seu sabor - o chilreio dos pássaros, o perfume da terra e das flores, a frescura dos regatos e do céu... Que mais se pode querer numa época de assapar o cú num banco e ficar colado a um êcran durante horas a fio, sem verdadeiro benefício para o corpo e para a mente. No fim só resta frustração, olhos cansados e a mente evasiva do que se viu (ou pensa que viu). A vida social actual é um caco.
Depois da calmaria veio a tempestade, com tal violência que criou rios, como comprovam as imagens.
Tal como foi predito pelos cientistas à mais de dez anos atrás, as mudanças podem ser rápidas e radicais, e a prova está à vista. Nunca na vida fui para a praia na segunda semana de Abril (que me lembre. E tenho boa memória.).
Tenho reparado que o vento também já não é como dantes. Antigamente, se estivesse vento para o interior, junto à costa era insuportável. Agora não. Faz uma ventania louca aqui e quando nos aproximamos da costa amaina, e está-se melhor que no interior. Estranho, não é? Eu acho.
Este Inverno e Primavera já vi de tudo a nível climatérico: só faltava a erupção dum vulcão na Islândia para alterar ainda mais o paradigma da civilização moderna (e a sua incapacidade de ultrapassar certos desafio da natureza). Neste momento a Europa Ocidental está com os vôos aéreos cancelados até o vulcão amainar, só que o dito cujo não está pelos ajustes e continua a cuspir fumo, cinza e lava com fartura para a atmosfera.
Acho uma dádiva dos Deuses acontecimentos como este: é da maneira que o animal humano não polui o ar que respira durante algum tempo (o vulcão trata disso). As companhias aéreas? - que se lixem! Ganham fortunas por ano, à custa das futuras gerações. Façam aviões a andar à vela.
O humano tem que viajar? Que vá a cavalo ou de burro. É da maneira que mantém a forma e vê o Mundo que o rodeia com todos os cambiantes do seu sabor - o chilreio dos pássaros, o perfume da terra e das flores, a frescura dos regatos e do céu... Que mais se pode querer numa época de assapar o cú num banco e ficar colado a um êcran durante horas a fio, sem verdadeiro benefício para o corpo e para a mente. No fim só resta frustração, olhos cansados e a mente evasiva do que se viu (ou pensa que viu). A vida social actual é um caco.
Depois da calmaria veio a tempestade, com tal violência que criou rios, como comprovam as imagens.
Tal como foi predito pelos cientistas à mais de dez anos atrás, as mudanças podem ser rápidas e radicais, e a prova está à vista. Nunca na vida fui para a praia na segunda semana de Abril (que me lembre. E tenho boa memória.).
quarta-feira, 7 de abril de 2010
O Universo nas pedras 1
Coloquei no facebook as pedras que também vou colocar aqui, porque gosto muito desta fase de pesquisa intitulado - "Paleta Cósmica".
Tenho andado nos meus passeios habituais a pé com os olhos no chão. De repente o Mundo ganhou uma nova dimensão, tão grande que se está a tornar em mais uma das minhas obsessões (comparável às plantas) e o resultado é tão espectacular como o delas.
O fascínio colorido das pedras não é visível facilmente. Embora lá esteja, ninguém se dá ao trabalho de o analisar. Contudo, com uma máquina fotográfica e um zoom médio, é possível ver o invisível. É ai que reside o encantamento e a diversão.
Hoje em dia toda a gente passeia de carro e acha que é muito esperta em proceder dessa forma. Esse tipo de pensamento e forma de estar na vida dá-me vontade de rir. Na verdade as pessoas passeiam os carros e não as suas próprias carcaças. Ficam assim desprovidas do melhor: tudo o que as rodeia, e não vou entrar em pormenores; imaginem-nos.
Não sei até onde irá durar esta pedrada (embora não falte matéria prima neste mundo e no Universo) e vou continuar a olhar para o chão. Curiosamente até já dinheiro achei com esta brincadeira.
Vejamos as pedras (aqui no blogue vêem-se melhor).
Tenho andado nos meus passeios habituais a pé com os olhos no chão. De repente o Mundo ganhou uma nova dimensão, tão grande que se está a tornar em mais uma das minhas obsessões (comparável às plantas) e o resultado é tão espectacular como o delas.
O fascínio colorido das pedras não é visível facilmente. Embora lá esteja, ninguém se dá ao trabalho de o analisar. Contudo, com uma máquina fotográfica e um zoom médio, é possível ver o invisível. É ai que reside o encantamento e a diversão.
Hoje em dia toda a gente passeia de carro e acha que é muito esperta em proceder dessa forma. Esse tipo de pensamento e forma de estar na vida dá-me vontade de rir. Na verdade as pessoas passeiam os carros e não as suas próprias carcaças. Ficam assim desprovidas do melhor: tudo o que as rodeia, e não vou entrar em pormenores; imaginem-nos.
Não sei até onde irá durar esta pedrada (embora não falte matéria prima neste mundo e no Universo) e vou continuar a olhar para o chão. Curiosamente até já dinheiro achei com esta brincadeira.
Vejamos as pedras (aqui no blogue vêem-se melhor).
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